Do colonial ao virtual: as infinitas barreiras que o racismo ultrapassa

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O racismo ultrapassa barreiras temporais, sociais, econômicas, culturais e, hoje em dia, principalmente, virtuais. Como pessoa negra, que lida diretamente com a produção de conteúdo digital, não é de hoje que identifico as diversas nuances do racismo presentes em ferramentas e funcionalidades das redes sociais e aplicativos de entretenimento.

Os bancos de imagens, por exemplo, são grandes repercussões de padrões eurocentricos nas peças publicitárias, já que na maioria esmagadora das vezes, as imagens presentes nos repositórios são de pessoas brancas, sendo elas europeias ou norte-americanas, o que se difere bastante da realidade étnico-racial do Brasil, onde 54% da população do país é autodeclarada negra.

Em uma busca rápida na internet, ao pesquisar pelo termo "mulheres bonitas" ou "homens bonitos", nos deparamos apenas com pessoas brancas nos resultados principais. Com isso, conseguimos visualizar nitidamente uma estrutura que não reconhece a estética da pessoa negra como visualmente atrativa, ou seja, como bonita.

Um outro bom exemplo que podemos citar são filtros para story do Instagram, que em diversos casos, amenizam os traços negros presentes nos usuários da rede social, sendo responsáveis por diminuir o tamanho do nariz, da boca, mudar a cor dos olhos, afinar o formato do rosto, chegando até mesmo a clarear a tonalidade da pele dos usuários.

Além desses casos, o aplicativo de edição de imagens FaceApp, já disponibilizou uma função que prometia tornar a foto do usuário mais sexy, entretanto, esse recurso acabou embranquecendo a pele do usuário. A justificativa dos desenvolvedores foi que, pelo fato do app recorrer ao uso de inteligência artificial, baseado em imagens de modelos de pele branca, para gerar as transformações nos rostos, tal fato acabou acontecendo.

Ações para promover o clareamento do povo negro não são práticas atuais, muito pelo contrário. Apesar de ser em outro contexto, a ideologia do embranquecimento adotada no período colonial, surgiu como uma forma de estimular a diminuição no número de pessoas negras.

Sendo assim, hoje em dia, o racismo advindo das tecnologias também é responsável pela desfragmentação da identidade negra, o que impacta diretamente no impedindo do processo de autoaceitação ao promover um padrão de beleza que foge totalmente da nossa realidade enquanto pessoas brasileiras, de etnias diversas. Nesse sentido, fica a reflexão aos desenvolvedores: o seu produto ou serviço é pensado para o uso de uma pessoa negra?

Beatriz
Melquisedec Lima, Digital Planner
19 de Novembro 2020