O que você faz quando ninguém te vê fazendo?

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Imagine que você pudesse fazer suas compras, abastecer seu carro e inúmeras outras atividades cotidianas sem interagir com ninguém. Você escolhe, você paga e, se necessário, leva o troco. Tudo isso com autonomia total para declarar o valor da compra que quisesse ou devesse. Porque há a confiança de que nem você, nem ninguém, teria um comportamento que não fosse o correto.

No Brasil, nunca discutimos tanto a respeito de transparência. Com isso, o tema da moda hoje não poderia ser outro: compliance. Você já ouviu falar a respeito?

Compliance quer dizer “fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está olhando”. É um termo estrangeiro que, literalmente, significa “cumprimento”. Também podemos entendê-lo como “o dever de promover uma cultura que estimule a conduta ética e o compromisso com o cumprimento de leis e normas”. No Brasil, o tratamos como conformidade ou integridade. Na prática, é quando uma organização combina atitudes, crenças e comportamentos para agrupar normas, manter uma conduta ética e, assim, combater desvios de conduta.

No entanto, muitas pessoas e também empresas ainda não compreenderam como o compliance pode ser vantajoso. Ele possibilita um conhecimento maior sobre o negócio e sobre o mercado de atuação. Além disso, viabiliza a prevenção e a detecção de riscos, a proteção à marca, à imagem e à reputação da empresa. A Diretoria Executiva de uma organização que adotou o compliance fica mais protegida. Há redução e proteção de perdas, fraudes e irregularidades. Os negócios são celebrados com mais segurança. E tudo isso torna a empresa mais competitiva e atrativa, com a vantagem adicional de criar um melhor ambiente de negócios.

Então, se as boas práticas são saudáveis para as organizações e para a sociedade, por que elas não são automaticamente adotadas por todos?

Embora estejamos falando de processos, de cumprimento de regras, normas e leis, compliance é, antes de tudo, uma mudança de cultura. Envolve rever hábitos, perspectivas e valores.

Por isso, é fundamental que as pessoas sejam envolvidas no processo, entendendo que são capazes de ajudar na mudança e enxergando valor efetivo na sua contribuição. As organizações podem desenvolver mecanismos de incentivo para a prática ética, por exemplo.

Negócios são feitos por pessoas, então é para elas e por elas que algo assim é implementado: para que haja mais segurança no desempenho de suas funções e, dessa forma, resultados mais significativos. Começa por olhar para o negócio sob a ótica de que ele pode crescer em reputação, desempenho financeiro e, ainda, deixar um legado verdadeiro se for construído com base em pilares sólidos e processos estruturados.

A sociedade se constrói com as ações cotidianas de todos os seus membros. Mais do que grandes momentos históricos, são os dias comuns que definem a realidade de um país. A postura ética não é uma denominação que pode ser adotada de uma vez e para sempre, ela precisa ser renovada todos os dias e perante todas as tentações e racionalizações.

Yuri
Letícia Sugai, sócia das empresas Veritaz Gestão de Riscos e Compliance e Gordion Consultoria.
04 de Fevereiro 2021